Enquanto a agenda climática global enfrenta um arrefecimento em diversas partes do mundo, o Brasil ganha destaque e ímpeto no setor. A avaliação foi sintetizada por Mário Gouvêa, Secretário do Tesouro Nacional, durante um encontro promovido pelo Brazil Journal em Nova York, no contexto da Climate Week. O evento reuniu representantes do governo federal, gestoras de investimentos e grandes corporações para debater os próximos passos da transição do país rumo a uma economia de baixo carbono.
As discussões foram iniciadas pelo ministro do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, que apresentou um panorama histórico e otimizado sobre o financiamento climático nacional. Segundo o ministro, entre 2009 e 2023, o Fundo Clima operou com uma média anual de R$ 400 milhões, valor considerado insuficiente para gerar transformações estruturais. O cenário, contudo, mudou drasticamente com a emissão de títulos verdes soberanos.
- 2024: O volume arrecadado ultrapassou a marca de R$ 10 bilhões.
- 2025: Os recursos alcançaram R$ 14,5 bilhões.
- 2026: A projeção e o montante atingiram R$ 27 bilhões.
Apesar da forte expansão dos aportes públicos, houve consenso entre os participantes de que o protagonismo da transição deve ser assumido pelo setor privado. Gouvêa destacou que os recursos estatais funcionam como uma alavanca para atrair o capital privado, mas ressaltou a necessidade de compreender eventuais gargalos caso esse investimento não esteja fluindo na velocidade esperada. Coordenador do Eco Invest — programa federal voltado para atrair capital nacional e internacional para projetos de transição —, Gouvêa pontuou que já existem mais de R$ 14 bilhões comprometidos para os próximos anos, assegurando estabilidade para a próxima década, independentemente de flutuações políticas. Contudo, o secretário deixou um questionamento central: "Onde está o pipeline de projetos?"
A presidente da COP30, Ana Toni, reforçou o argumento ao afirmar que a diplomacia por si só é insuficiente sem a materialização de iniciativas concretas. Para ela, o Brasil tem o desafio histórico de não perder o timing, apesar do frescor trazido à agenda ambiental pela realização de cúpulas internacionais como o G20, o encontro dos BRICS e a própria COP30 no país. Toni defendeu a consolidação de uma "diplomacia do setor privado", fomentando espaços contínuos de diálogo público-privado.
A dificuldade operacional também foi apontada por Lina Lisbona, sócia da Vox Capital, que enfatizou a complexidade da transição climática. De acordo com a executiva, o processo exige uma reformulação profunda nos métodos de produção, distribuição e consumo, o que demanda diferentes modalidades de capital e um esforço genuíno na elaboração de projetos de impacto real. No mesmo sentido, Sergio Suchodolski, CEO da Fama Re.Capital, observou que, embora o ecossistema de gestoras financeiras tenha amadurecido de maneira consistente nos últimos quatro anos, persistem barreiras na execução de projetos fora do eixo tradicional entre Rio de Janeiro e São Paulo.
Do ponto de vista corporativo, a descarbonização passou a ser tratada estritamente como estratégia de negócios. Grazielle Parenti, VP de sustentabilidade da Vale, pontuou que as práticas sustentáveis ainda apresentam custos elevados, mas tendem a baratear à medida que ganharem escala, exigindo foco estrito nos números e na viabilidade financeira. Paulo Skaf Filho, CEO da ComBio, acrescentou que o atual momento é propício para conciliar a redução de custos com a diminuição de emissões, defendendo uma regulamentação pragmática e equilibrada para o mercado de carbono no longo prazo.
Encerrando o debate, Roberto Waack, presidente do comitê de sustentabilidade da MBRF, chamou a atenção para a necessidade de valorização econômica do capital natural brasileiro. Para Waack, o maior patrimônio ambiental do planeta ainda é subavaliado e frequentemente tratado pelo setor privado como passivo, exigindo avanços metodológicos, reconhecimento institucional e arcabouço regulatório para que o país consolide sua liderança na economia global de baixo carbono.
Fonte original: Brazil Journal